7 May 2014

Na plataforma ao lado, sai quase na mesma hora o Paris-Berlin-Moscou. O trem é operado pelas Ferrovias Russas, as cabines vistas de fora são as mesmas dos trens noturnos franceses e alemães, cada vez mais raros, sombrias, os avisos em cirilico e alemão. O vagão restaurante como não se vê mais nos nossos dias, as mesas postas e organisadas, as janelas pequenas. Nas outras plataformas estão alinhados os trens de grande velocidade, claros, luminosos, funcionais. O Paris-Moscou é um anacronismo. Quem prefere esse trem à um vôo mais rapido, mais direto? Imagino os Corto Malteses deste mundo. Uma ponta de nostalgia da viagem passa, a mesma sensação que eu tive em outras plataformas, dentro do Paris-Veneza ou vendo passar o Instabul-Aman. Me pergunto quanto tempo leva esse trem para chegar ao destino? Um vida inteira talvez.
Sento-me no assento que me é reservado. Espero a partida do meu trem e me deixo perseguir o cotidiano.

Paris-Est,6h50

1 May 2014

o fim no começo

A palavra cortada
na primeira sílaba.
A consoante esvanecida
sem que a língua atingisse o alvéolo.
O que jamais se esqueceria
pois nem principiou a ser lembrado.
O campo – havia, havia um campo?
irremediavelmente murcho em sombra
antes de imaginar-se a figura
de um campo.

A vida não chega a ser breve.

27 April 2014

l'étranger | blanc

l'étranger

- Qui aimes-tu le mieux, homme énigmatique, dis ? ton père, ta mère, ta sœur ou ton frère ?
- Je n'ai ni père, ni mère, ni sœur, ni frère.
- Tes amis ?
- Vous vous servez là d'une parole dont le sens m'est resté jusqu'à ce jour inconnu.
- Ta patrie ?
- J'ignore sous quelle latitude elle est située.
- La beauté ?
- Je l'aimerais volontiers, déesse et immortelle.
- L'or ?
- Je le hais comme vous haïssez Dieu.
- Eh ! qu'aimes-tu donc, extraordinaire étranger ?
- J'aime les nuages... les nuages qui passent... là-bas... là-bas... les merveilleux nuages !

24 April 2014

古今和歌集 巻一 1


としのうちに
春はきにけり
ひととせを
こそとやいはむ
ことしとやいはむ


Within the year
Spring has come again;
The one year:
What should I say: that it's last year,
Or that it's the year to come?

translated by Thomas McAuley

20 April 2014

eternal sunshine of the spotless mind

eternal sunshine of the spotless mind
How happy is the blameless vestal’s lot!
The world forgetting, by the world forgot.
Eternal sunshine of the spotless mind!
Each pray’r accepted, and each wish resign’d

3 April 2014

voyage du silence

Voyage du silence
De mes mains à tes yeux

Et dans tes cheveux
Où des filles d’osier
S’adossent au soleil
Remuent les lèvres
Et laissent l’ombre à quatre feuilles
Gagner leur cœur chaud de sommeil.

os cantores inúteis

Um pássaro flautista no quintal
caçoa de meu verso modernista.
Afinal fez-nos ambos o universo
aprendizes ao sol ou à garoa.

A canção absoluta não se escreve,
à falta de instrumentos não-terrestres.
Aos mestres, indagando, mal se escuta
pingar, de leve, a gota de silêncio.

Eu, pretensioso, e tu, pássaro crítico,
vence o mítico amor nossa vaidade:
Os amantes que passam, distraídos

e surdos a tais cantos discordantes,
a melodia interna é que os governa.
Tudo mais, em verdade, são ruídos.

27 March 2014

古今和歌集 巻六 316


おほそらの
月のひかりし
きよけれは
影見し水そ
まつこほりける


From the firmament
The moonlight is
So pure,
The waters touched by its beams
Are the first to freeze.

translated by Thomas McAuley

20 March 2014

memória

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.

16 March 2014

velhas árvores | verde

velhas árvores

Olha estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores novas, mais amigas:
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas...

O homem, a fera, e o inseto, à sombra delas
Vivem, livres de fomes e fadigas;
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E os amores das aves tagarelas.

Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo! envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem:

Na glória da alegria e da bondade,
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!

13 March 2014

古今和歌集 巻六 330


冬なから
そらより花の
ちりくるは
雲のあなたは
春にやあるらむ


It’s Winter now, yet
From the skies blossom
Comes fluttering down;
Beyond the clouds
Can it be Spring already?

translated by Thomas McAuley